O aguardado retorno do BTS ao cenário musical trouxe mais do que novas faixas e recordes de audiência. Com o lançamento do álbum “ARIRANG”, no último dia 20 de março, o grupo sul-coreano voltou a ocupar o centro das atenções e não apenas pela música, mas também pelo debate que rapidamente se instaurou entre fãs e especialistas da indústria.
Após um período de hiato motivado pelo serviço militar obrigatório na Coreia do Sul, o projeto marca oficialmente a retomada das atividades do septeto. Apresentado como o quinto álbum de estúdio da carreira, o trabalho carrega, desde o título, uma forte carga simbólica ao fazer referência à tradicional canção folclórica coreana “Arirang”, considerada um dos maiores ícones culturais do país.

Idioma e mercado: o ponto central da discussão
Apesar da escolha do nome e da proposta conceitual ligada às raízes culturais, “ARIRANG” chamou atenção por trazer a maior parte de suas músicas em inglês. A decisão rapidamente dividiu opiniões nas redes sociais, levantando questionamentos sobre até que ponto a busca por expansão internacional pode interferir na identidade original do grupo.
Relatos atribuídos a veículos internacionais e repercutidos entre fãs indicam que integrantes como RM e SUGA teriam defendido internamente a presença mais significativa do idioma coreano, principalmente nas partes de rap — um dos elementos mais marcantes da sonoridade do BTS ao longo dos anos. A preocupação central seria preservar a autenticidade cultural que ajudou a consolidar o grupo como um fenômeno global.
“Em uma das reuniões, SUGA e RM expressaram o desejo de ter mais letras em coreano, principalmente nos raps. RM disse, ‘Autenticidade importa’. Mas a vice presidente da Big Hit Music, Nicole Kim, rejeitou, dando a entender que eles precisam tentar [cantar em inglês] se quiserem que o álbum seja global. (…) Kim especificamente identificou as músicas ON e Black Swan* como exemplo de canções incapazes de gerar identificação no público” (Vulture). ON e Black Swan são majoritariamente em coreano.
Segundo a Dispatch, os membros se mantiveram firmes, insistindo: “Precisamos sim incluir mais letras em coreano, nem que seja só nos raps”.
A discussão teria ocorrido durante reuniões criativas com executivos da gravadora, em meio a estratégias voltadas para ampliar ainda mais o alcance internacional do álbum. A avaliação de parte da indústria aponta que músicas predominantemente em inglês tendem a facilitar a penetração em mercados ocidentais, aumentando o potencial comercial.
Fãs se lembram de quando os executivos da empresa também insistiram para que j-hope tirasse as músicas “mais coreanas” da sua setlist do Lollapalooza e as substituísse por outras em inglês, ao que o artista recusou.
Um álbum híbrido entre raízes e expansão
O resultado desse possível impasse se reflete diretamente na obra final. “ARIRANG” surge como um projeto híbrido, que combina uma linguagem global com elementos simbólicos profundamente conectados à cultura coreana. Ainda que o inglês domine grande parte das faixas, referências estéticas, conceituais e trechos pontuais em coreano reforçam a identidade do grupo.
A própria campanha de divulgação evidencia esse equilíbrio. Em materiais promocionais, o BTS apresentou o álbum como um reencontro com suas origens e memórias, especialmente após anos de pausa obrigatória. Versões físicas como “Rooted in Korea” e “Modern Korea Vinyl” reforçam a intenção de manter a cultura coreana como eixo central do projeto, mesmo dentro de uma estratégia internacional.
Entre os fãs, a recepção foi imediata e diversa. Enquanto uma parcela celebrou a nova fase e a sonoridade mais acessível ao público global, outra passou a questionar se a empresa estaria conduzindo o grupo a uma “ocidentalização” excessiva. Esse tipo de tensão, no entanto, não é novidade na trajetória do BTS, que ao longo da carreira já enfrentou dilemas semelhantes ao equilibrar crescimento mundial e identidade artística.
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Nos bastidores, o caso de “ARIRANG” reforça uma característica que sempre marcou o grupo: a participação ativa dos integrantes nas decisões criativas. Mais do que uma discussão sobre idioma, o álbum evidencia um debate mais amplo dentro da indústria musical contemporânea — o limite entre adaptação ao mercado global e preservação da essência artística.
Ao retornar com um projeto que une tradição e estratégia, o BTS não apenas reafirma sua relevância, mas também coloca em evidência uma das questões mais sensíveis do pop atual: até que ponto é possível conquistar o mundo sem deixar de lado as próprias origens.
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